Faz uma semana que iniciei minha análise. A analista é lacaniana. Passei a ler artigos sobre Lacan para começar a entender como funciona nossa psique para ele. Ainda estou naquele estágio inicial de me sentir perdida. Sei que, por algum motivo e em algum momento, passei a viver sem desejos e, para essa linha da psicanálise, o desejo é o que nos move. Não sei os porquês de várias coisas, muito menos como romper com meus paradigmas. Para Lacan, a vida é reinvenção. Me pergunto como se reinventar quando nossas fantasias são frutos de acontecimentos lá da relação entre o bebe e a mãe? E está claro para mim que a doença é um sintoma. A partir do momento em que eu me der conta de que esse sintoma não serve para nada, será abandonado. Existe em mim um desejo inconteste pelo reconhecimento do outro, daí eu sempre me colocar na posição de quem atende às demandas. O reconhecimento do outro se faz presente quando a falta não é possível de ser elaborada. Muito provavelmente minha mãe não foi a mãe suficientemente boa. Não se preocupara com suprir minhas necessidades, mas cuidara de mim de acordo com suas necessidades, suas vontades. É assim até hoje, quando me trata como um objeto, sem vontades. A não percepção da falta do outro, me faz viver numa tóxica simbiose com o outro, daí minha singularidade nunca é expressa. Ainda sou o falo da minha mãe. Compreendida a situação, permanece a questão: Como resistir? Se nos movemos de acordo com nossos desejos, então estaria eu a desejar a morte? Não. A doença não é um sintoma de um desejo pela morte; a doença é um sintoma de um desejo pela vida, não compreendido, não realizado. Além de ter de identificar meus desejos, preciso também identificar o que chamam de estádio do espelho, que me leva à ação. Por exemplo, eu me dei conta de que estava vivendo uma vida de barata no trabalho, como no livro Metamorfose de Kafka, quando concluí que, por mais que estivesse a dedicar minha vida àquilo, fui preterida num cuidado que achava ter direito a, em primeiro lugar. Explodi: é como se não me enxergassem, como se fosse invisível! Em casa também, quando meu marido demonstrou que eu não era merecedora de todos os cuidados que me dedicava, saí de meu estado de inanição. Compreendi que toda aquela inércia era desnecessária, porque não realizaria jamais meu desejo impossível de simbiose absoluta.
Blog sobre música, cinema e outras artes, literatura, poesia, informação, tecnologia, política, religião, curiosidades, idéias, ufa, é coisa à beça, nada em especial, para me sentir livre para tudo que me cerca, para escrever sobre o que tiver vontade.
18 de dez. de 2012
16 de dez. de 2012
ENVELHECER
Vc se da conta do quanto envelheceu quando vai a uma festa de formatura e achando que, como no seu tempo, o 2º bloco de músicas, pós-valsa, é o melhor, reserva toda sua energia para dançar nesse momento e aí quando ele chega com uma sucessão sem fim de sertanejo, passa para Fagner, Sidney Magal, Gretchen, Xuxa, Balão Mágico (daí para frente não paguei para ver), conclui que o melhor bloco de músicas para vc passou a ser o 1º.
14 de dez. de 2012
PSICANÁLISE
Como Woody Allen, com suas sátiras, ou Cazuza, para quem pagar um analista é uma forma de nunca mais saber quem se é, sempre desacreditei da terapia, até ter a sorte de encontrar "O" terapeuta. Cazuza disse certo, com a intenção errada. Vc nunca mais vai saber quem é, ou melhor, quem pensa que é, até porque não se é, se está sendo. A vida é ação, no candomblé, movimento, no inglês, "i'm being". É assustador e ao mesmo tempo excitante se desconstruir e ter de ser reinventar.
5 de dez. de 2012
TRÂNSITO
De todas as atitudes machistas, confesso que tem apenas uma da qual não me livro. Não sei por que motivo considero um xingamento dirigido a uma mulher por um homem muito mais ofensivo do que a um homem ou o inverso. Sei lá, se fosse homem acho que jamais cometeria tamanha indelicadeza, me sentiria meio eunuco se o fizesse. Hoje, fui xingada no trânsito porque numa rotatória, sem pare, fiz valer a minha preferencial, pois já me encontrava na rotatória. Infelizmente, muita gente, não sei o porquê, já que há prova teórica para habilitação e renovação de CNH, não sabe que numa rotatória, sem sinalização de pare, a preferencial é de quem já se encontra na rotatória, assim como num cruzamento, sem sinalização de pare, a preferencial é de quem vem à direita. Deveria existir uma campanha televisiva nesse sentido, já que muitos não lêem as regras de trânsito, acham que dirigir é só acelerar, frear, dar ré, fazer baliza e etc. Por essas e outras, meu desejo de me mudar para o interior só cresce. Está cada dia mais complicado conviver num espaço público com tanta gente que não se respeita.
20 de nov. de 2012
AINDA
Como uma adolescente, ainda sofro com o sentimento de não pertencer a este mundo. Mas não tenho vontade de partir desta para melhor. Amo viver. Acho que todos nós, no fundo, mantemos uma relação de amor e ódio com a própria existência. São esses opostos, como tese e antítese, que nos impulsionam.
17 de nov. de 2012
DIARISTA
Para os anais dos assuntos domésticos.
Estou com uma nova
diarista e ela me pergunta se eu prefiro que vá limpando e colocando as coisas
no lugar ou não. Mesmo sem entender direito a pergunta, fiquei com a primeira
opção, mas disse que se ela colocasse as coisas em lugares diferentes, por se
esquecer de onde tirou, não teria problema.
Ela então, me corrigindo, explicou
que nas casas onde trabalha tira tudo do lugar para limpar e sai limpando. Como
assim? Perguntei. Onde vc coloca as coisas? Ela exemplificou. “Por exemplo,
limpo essa mesa, coloco as cadeiras em cima para limpar o chão, e assim deixo, minha
patroa é quem coloca no lugar”. Me imaginei chegando do trabalho 21h00 e,
depois de pagar R$ 110,00, por 8 horas, para ela limpar a casa (só limpar
porque passar teria de contratar uma passadeira), encontrar tudo no chão ou na
mesa para eu recolocar no lugar. Minha estante de livros! Diaristas domésticas não estão se transformando em artigo de luxo, mas em comediantes. Só rindo.
14 de nov. de 2012
Despedida na sessão plenária do Supremo Tribunal Federal do Ministro Ayres Brito não poderia passar sem suas frases filosóficas: "as rugas aumentam para que as rusgas diminuam"; "derramamento de bílis e produção de neurônios não combinam"; "o juiz não deve impor respeito, mas impor-se o respeito"; "perguntaram à Madre Teresa de Calcutá, uma vez, se ele acreditava no juízo final. Ela respondeu afirmativamente, mas que não sabia como seria o Céu. Mas que sabia que, lá no Céu, não perguntariam quantas ações você fez, mas quanto de amor você colocou em cada uma de suas ações”.
9 de nov. de 2012
SARDENBERG
É sempre engraçadíssimo ver Sardenberg no Jornal da Globo falando sobre economia, ao mesmo tempo em que interage com o painel eletrônico, touch screen, que nunca funciona direito.
20 de out. de 2012
MENSAGEM A ALINE
Se o TMO não é um tratamento viável para vc, a ÚNICA ALTERNATIVA é o brentuximab vedotin e, sendo única alternativa, o Estado obriga-se a custeá-lo.Aline, gostei muito do seu blog, e me identifiquei muito com você, não apenas pela luta que enfrenta, mas pela forma como a enxerga. Eu nado há mais de 11 anos (meu diagnóstico foi em junho de 2001), e agora não aceito mais, depois de tudo a que me submeti, morrer na praia. Ao contrário de muitos que passam por problemas semelhantes, não me identifico com as ideias de que isso tudo tenha um sentido, de que passei a dar valor às pequenas coisas da vida, ou de que me tornei uma pessoa melhor, ou, pior, de que escolhi o fardo antes de encarnar, lei da causa e efeito, castigo de Deus, etc, etc, etc. Nem mesmo aceito os elogios de que sou uma pessoa forte. Passo pelo que tenho de passar por falta de opção e covardia diante da morte (acho que o ser humano inclina-se naturalmente para a vida; o esforço dá-se no sentido contrário).Assisti à entrevista do Gianechini para Marília Gabriela e, ao contrário dele, responderia, na primeira pergunta, que, após o linfoma, a vida, para mim, se tornou, não mais simples, mas mais complexa, para a qual o imponderável está sempre presente, sem leis que o governem. Se, por um lado, o caos nos torna mais órfãos, de outro, demonstra nossa grandeza e nossa irmandade, sob um céu onde Deus nos ama e ponto.E ver os acontecimentos assim como são, sem dourar a pílula, ao contrário do que os outros possam imaginar, é que me impele à vida. Não desisto dela, porque faça algum sentido, mas porque, mesmo sem sentido, é o que há de mais divino e precioso, gosto dela assim, sem precisar inserí-la num comercial de margarina.Não sei se minhas palavras fazem bem ou não a vc, mas digo-lhe que é essa minha capacidade de me indignar, de não aceitar, que me mantém em pé até hoje.Quero lhe ver assim, lutando sempre e ganhando a batalha!Um grande abraço,
19 de out. de 2012
LARISSA - ESPREMENDO O LIMÃO
Larissa, acabo de conhecer seu blog, por acaso (como tudo na vida), vasculhando este vasto mundo virtual (mais fácil teria sido nos esbarrarmos por aí, em tratamento, pois também fui paciente do Dr. Miyagi). Pesquisava sobre o provável tratamento a que terei que me submeter: vacina de células dendríticas ou transplante de medula óssea. O "ou" é por minha conta, meu médico disse "e" (risos). Ao topar com você, tive um acesso tão grande de ansiedade, subia e descia a barra lateral, freneticamente, em busca dos primeiros posts, queria ler e absorver tudo de uma única vez, e tive pânico de o blog, de repente, sair do ar, e eu acabar perdendo o tesouro encontrado. A tudo isso, some-se o penúltimo capítulo da novela "Avenida Brasil" começando (risos). A leitura sobre sua vida me fisgou, e a novela ficou de lado (risos). Se somos únicos em nossa individualidade e maneira de ver o mundo, diria então que não encontrei a mim mesma, mas a uma irmã gêmea. E você, por mais que eu não esteja sozinha nessa luta, me fez sentir menos só. Sei que muitos são os casos de linfoma no mundo. Mas até então só conhecia pessoas que se curaram ou morreram. Eu ainda nado, há 11 anos (e não aceito morrer na praia). Como você, também fiz dois transplantes (autólogo e alogênico, o terceiro é cogitado), vários protocolos quimioterápicos, internações em UTI's, quatro radioterapias, interleucinas, brentuximab, e inúmeras complicações que não vêm ao caso (cansam para contar). Me emocionei com o milagre de sua gravidez, seu casamento e todos os outros acontecimentos de alegrias, tristezas, medos e superações. Estou casada com o mesmo namorado que, com um mês de namoro, recebeu a má notícia junto comigo e de mim, para minha sorte, nunca mais se separou (tinha 22 anos de idade e estava há seis meses do meu diploma universitário). Gostaria tanto de manter contato, conversar. Se puder me responder, me dizer como está, ficarei muito feliz. Beijos.
18 de out. de 2012
DIA DOS MÉDICOS
Quero prestar especial homenagem aos que dedicam suas vidas a tornar as dos outros melhor. Em especial a meu querido médico Nelson Hamershlack e equipe e Dr. Eduardo Meyer e equipe, seres humanos iluminados. Sem a fé deles a minha seria menor, e certamente eu não estaria mais aqui. Tê-los ao meu lado, independentemente do final da trajetória, é um privilégio, um alívio para minha alma, um sopro de vida para meu coração.
15 de out. de 2012
GRACILIANO RAMOS
Enfim, chegaram. Nunca desejei tanto umas férias. Vou aproveitar para pensar sobre a vida, fazer ou refazer planos e... ler. A começar por um dos meus autores preferidos, Graciliano Ramos. Faz tempo que comprei o livro Angústia e até hoje não o li. Aliás, faz tempo que não leio um livro. Para quem vivia com um na mão, à cabeceira, na bolsa, no trabalho, em todos os lugares, significa uma enorme abstinência. Meu sonho, tão distante: um dia escrever como Graciliano.
“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” [Graciliano Ramos].
7 de out. de 2012
FUTURO
Nunca acreditei em videntes e cartomantes. Um dia estive frente a uma, por circunstâncias totalmente alheias a minha vontade. Nunca me esqueci, não das doces mentiras que nossos ouvidos buscam ouvir embrulhadas de previsões, mas da simples declaração de amor à vida e às pessoas que fez. A senhora olhou profundamente em meus olhos (e poderia ter parado aqui, porque seu olhar era daqueles que antecipam toda a beleza por vir) e disse: "Filha, nunca saí desta casa, embora tivesse tido oportunidade de conhecer outros lugares, como por exemplo Goiás, onde mora meu filho. Mas, lhe digo, não teria sido mais feliz em nenhum outro canto como fui aqui, com o meu velho." Videntes e cartomantes continuam sem crédito comigo, mas a humanidade marcou um ponto com esta velhinha, pela sinceridade com que falou sobre a felicidade estar dentro da gente. Pessoas me interessam pelas sabedorias de vida que passam, despretensiosamente. Um clichê jamais será apenas um clichê quando dito com sinceridade. Eu te amo, por exemplo.
PABLO NERUDA
Se não fosse porque têm cor-de-lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.
Se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,
oh, bem-amada, eu não te amaria!
em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
(uma das minhas preferidas do poeta)
COMO TUDO NA VIDA
Em tempo de relacionamentos efêmeros, me perguntam o segredo de um relacionamento de mais de 10 anos. Segredo nenhum. Nada que todo o mundo não saiba: carinho, respeito e admiração. Mais maturidade e menos egocentrismo, simples assim, como tudo na vida.
4 de out. de 2012
POP ZEN
Que delícia a descoberta desta música no CD MTV Acústico do Arnaldo Antunes. A música é de uma banda baiana, que não existe mais, Lampirônicos.
Marisa Monte
Marisa Monte, saudades do tempo de "Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão" e de "Barulhinho bom". Marisa Monte, por favor, se encontre!
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